Martins Soares Moreno no Ceará
Origens e histórico da Festa do Bom Jesus dos Aflitos – Parte III*

[ Kelson Moreira ]

Estamos tentando traçar um panorama da situação dos povos indígenas no Ceará no período colonial, pois sabemos como isso tem relação direta com a formação da Aldeia da Porangaba e, portanto, tem importância para a tradição do que conhecemos hoje por Festa da Coroa do Bom Jesus dos Aflitos, em Parangaba.

Na Parte I falamos da expedição de Pero Coelho de Sousa e na Parte II tratamos da expedição dos primeiros missionários jesuítas, que resultou na morte de um personagem importante, e que ainda hoje figura no imaginário popular dos fiéis do Bom Jesus, o Pe. Francisco Pinto, também conhecido por Pai Pina.

Em 1611, já com essas duas expedições fracassadas, surge uma terceira tentativa, desta vez encabeçada por Martim Soares Moreno, que já havia participado como soldado da primeira expedição, quando teve a oportunidade de aprender um pouco da língua nativa, podendo comunicar-se com mais facilidade com os índios e estabelecer amizades com eles.

Por conta de suas qualidades, Martim foi promovido a tenente da Fortaleza dos Reis Magos em Natal, Rio Grande do Norte, com a missão de inspecionar o Ceará. O que fez com o auxílio de um indígena chamado Jacaúna.

Como resultado obteve dados valiosos. Por exemplo, segundo Aragão (1990), listou “a existência de 22 aldeias, contendo cerca de 150 mil indígenas“.

Foi então nomeado Capitão-Mor do Ceará e compôs a terceira expedição a vir para cá, chegando em 20 de janeiro de 1612, acompanhado de seis soldados e um padre chamado Baltazar João Correa. Com a ajuda de indígenas, ergueu uma capela dedicada a Nossa Senhora do Amparo e um forte denominado de São Sebastião.

Segundo Macena Filha (2002), quando ele chegou, “os Potiguaras se reuniram em quatro aldeias junto à Barra do Ceará e não mais hostilizaram os colonizadores“. Ainda segundo a mesma autora, foi nesse ano (1612) que “os índios do Siará (sic.), amedrontados com a seca, trouxeram da Ibiapaba os ossos do padre Pinto“, pois como já referimos, o dito padre tinha fama de protetor da chuva e do sol.

De acordo com Barão de Studart, “o governo de Martin Soares no Ceará estendeu-se, apesar de todos os tropeços, até 1631, quando partiu para Pernambuco” (STUDART, 1903).

Nesse tempo que passou por aqui, tornou-se conhecido como “Guerreiro Branco”, por pintar-se como os nativos e misturar-se com eles, batalhando contra os invasores. No entanto, já no período final da expedição, encontrava-se em quadro desolador, em meio à fome, doenças e desprezo por parte dos governadores.

Apesar de tudo, por conta de sua amizade, conseguiu convencer Jacaúna a entregar-se ao cristianismo católico, realizando uma solenidade em 22 de janeiro de 1622. Batizando-o com o nome de “João Algodão”, segundo Aragão (op. cit.)



ARAGÃO, Raimundo Batista. História do Ceará. 3ª ed. Fortaleza: [s.n.], 1990. v. 1.

MACENA FILHA, Maria de Lourdes. O potencial turístico das festas populares de Fortaleza. 2002. Dissertação (Mestrado) – Curso de Mestrado Profissional em Gestão de Negócios Turísticos, Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2002.

STUDART, Barão de. Martins Soares Moreno: o fundador do Ceará. Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza, CE, Ano XVII, 177-228, 1903.

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