A expedição missionária dos jesuítas Francisco Pinto e Luís Figueira
Origens e histórico da Festa do Bom Jesus dos Aflitos – Parte II*

[ Kelson Moreira ]

Pero Coelho de Sousa, capitão-mor da primeira expedição, impiedoso como foi, deixou um legado de sérias consequências que só agravariam ainda mais a situação dos portugueses e a possibilidade de tomar dos franceses o domínio das terras do Maranhão. Ao Governo Geral cabia julgar se eram lícitos ou não os cativeiros a que foram submetidos os nativos da Ibiapaba. Uma vez que toda a situação tornava ainda menos amistosa a relação entre portugueses e índios, era necessário também preocupar-se com futuras investidas naquele lugar. A nova empreitada não poderia ter o mesmo caráter violento que a primeira.

Tal solução veio de pronto quando os padres da Companhia de Jesus deliberaram ir àquelas terras. Mais uma vez houve um casamento de interesses: os do Governador, que já ficou claro quais são. E os catequéticos dos Padres Jesuítas.

Utilizaremos nesta análise duas obras que, dentre todas, consideramos as que contêm mais riqueza de detalhes sobre a missão dos primeiros jesuítas. Uma é a “História da Companhia de Jesus no Brasil”, do Serafim Leite e a outra é a “Relação do Maranhão”, de Luís Figueira. Deste último, destacamos claramente o objetivo da viagem:

Pax Christi. No Mez de jan.ro de 607 p. ordem de fernão Cardin pr.al nos partimos pera a missão do Maranhão o pe. Fr.co Pinto e eu cõ obra de sessentas Indios, cõ intenção de pregar o evangelho aaquella desemparada gentilidade, e fazermos cõ q’ lá residem para q’ indo os portugueses como determinão os que não avexassem nem captivassem” (INSTITUTO DO CEARÁ, 1967)

Para que tudo corresse bem era preciso determinar alguns detalhes para a viagem, tais como: as pessoas designadas para chefiar a expedição, os objetivos, a data de partida, o itinerário (ainda que aproximado) e algumas recomendações e providencias necessárias. Aparentemente, o responsável por estes detalhes foi o Padre Fernão Cardim, provincial da Bahia.

Quanto às pessoas designadas, a escolha recaiu sobre os padres Francisco Pinto e Luís Figueira. Segundo Leite (1943), eles partiram de Pernambuco no dia 20 de janeiro de 1607. Seu transporte era um barco que os levaria até a foz do Rio Jaguaribe e voltaria carregado de sal. Levaram consigo 60 índios. Sobre estes, Sobrinho fala:

Os índios que integravam a equipe em número de 60 eram todos do grupo ou família línguo-cultural Tupi, uns potiguaras da Paraíba e Rio Grande do Norte, já bem conhecidos do Padre Pinto, outros tobajaras da serra da Ibiapaba ou tupinambás do Maranhão. (INSTITUTO DO CEARÁ, 1967)

Muitos desses nativos haviam sido capturados por Pero Coelho e estavam sendo trazidos de volta como livres. Fazia parte da estratégia alforriá-los e levá-los de volta às suas terras. Os padres deveriam ir sozinhos, ou seja, sem a companhia de nenhum português. Essas medidas eram para que não levantassem a desconfiança e inimizade antes cultivada pelo colonizador.

O método empregado pelo Padre Pinto era, nesta circunstância, de muita serventia. Homem místico, tornou-se famoso entre os índios que o tratavam por Amanaiara, que na língua tupi significa “Senhor das Chuvas”. Pois em certa ocasião, encontrava-se ele com nativos que sofriam por causa da seca. Ajoelhou-se então e fez orações aos céus, que, como milagre, derramou generosa chuva sobre aquela terra, espalhando-se então sua fama de milagreiro. 

Ainda quanto ao método, este era de muita sagacidade. Ao aproximar-se da região onde fora enviado, mandava reconhecer o lugar e os modos daquela gente. Depois de adquirir tal informação preparava alguns índios que levava consigo, distribuindo presentes, convencendo-os a serem seus embaixadores e orientando-os a fazer grande propaganda sobre sua bondade e aceitação entre os indígenas. Recomendava também que não falassem que o padre fazia menção de ir até eles, quando na verdade era esse o seu desejo.

Sendo assim, os habitantes daquelas terras, querendo conhecer e confirmar a generosidade do tal sacerdote, seguiam aos embaixadores para um encontro com o jesuíta. No caminho, antes do encontro, já eram avisados das grandes e muitas ocupações do Padre Pinto e que era difícil conseguir uma visita sua, despertando ainda mais naqueles homens a vontade de conhecê-lo e de ter sua presença entre eles.

Durante o encontro havia muita conversa, distribuição de presentes e uma promessa de visita. Os nativos originais daquelas terras voltavam então à sua aldeia para avisar aos seus chefes sobre a ida do Pe. Pinto, preparando assim o local para que fosse feita uma boa acolhida, não faltando nada ao visitante, nem comida, nem rede para descansar, nem força humana para continuar viagem, nem aparente abertura para aprender dele o evangelho.

Em sua visita, ele tratava muito bem aos nativos. Visitava os enfermos e misturava-se às crianças. Distribuía presentes, cativando a todos e usando todas as oportunidades que tinha de falar-lhes para contar sobre o grande amor e desejo de paz que o levara ali e ainda o quanto se compadecia com os maus-tratos que eles haviam sofrido da parte dos portugueses.

É provável que todo esse cuidado tenha feito com que os índios o tratassem carinhosamente por “Pai Pina”, conforme consta no livreto da Festa da Coroa do Bom Jesus dos Aflitos, em Parangaba.

Antes de vir ao Ceará, Francisco Pinto esteve no Rio Grande do Norte, atendendo a um pedido do Padre Pero Rodrigues, por ocasião da conquista daquele lugar pelos portugueses, afim de celebrar as pazes entre os conquistadores e os potiguaras.

Nesta passagem, como de costume, atraiu a amizade e simpatia dos índios daquela nação. Conheceu alguns chefes dos nativos que o levaram a visitar uma terra chamada Capaoba, com grande concentração de potiguaras. Lá encontrou cerca de 70 aldeias e tomou conhecimento de muitas outras que haviam por lá.

O companheiro de expedição do Pai Pina foi o Padre Luís Figueira que escreveu a “Relação do Maranhão” em 1608, logo após o fim da expedição. Esta obra, que será nossa principal referência bibliográfica para falar sobre a expedição destes jesuítas à Ibiapaba, é pequena, com poucas páginas, tal qual a própria expedição. Mas isso não retira o requinte dos detalhes vividos, nem muito menos dos escritos. Desta obra, podemos extrair o sentimento de quem, ao escrever, parecia estar revivendo e sentindo tudo novamente.

A expedição saiu de Pernambuco, por mar, em janeiro de 1607 chegando à margem do Rio Jaguaribe, de onde seguiram por terra, rumo à Ibiapaba. Depois de muito caminhar, chegaram a 2 de março no Rio Curu, onde encontraram um assentamento de indígenas, cujo chefe se chamava Acauy. Permaneceram ali tempo suficiente para descansar e reabastecer os mantimentos que já estavam escassos.

Saindo então daquele assentamento, começaram a afastar-se do mar, pois sentiram o peso das chuvas de inverno que dificultavam o caminho, principalmente próximo aos rios. Isso não tornou mais fácil o trajeto. Bem fala o Padre Figueira, que muitas foram as dificuldades. Gastaram muito tempo embrenhando-se pelos matos, aproximadamente dois meses, quando poderiam em melhores condições, chegar em 15 ou 20 dias. Em relação ao percurso, progrediram pouco.

Em muitos lugares andavam com lama até o joelho, sem falar que passaram pela serra de Uruburetama, a que chamavam de “Serra dos Corvos”, onde perderam a noção do tempo, pois a mata era muito alta e espessa, não dando assim a certeza se era dia ou noite. Além disso, nesta serra encontraram “todas as pragas do Brasil: cobras, aranhas caranguejeiras, carrapatos, mosquitos e moscas”, conforme narra Figueira.

Tendo sofrido muito, inclusive com a fome, conseguiram chegar à serra de Ibiapaba. Lá foram recebidos pelos natios que traziam espigas de milho, que foram repartidas entre eles. Logo após, encontraram-se com o chefe da tribo.

Depois dali cuidaram em encontrar lugar para repouso. Mandaram então saber em outra aleia se gostariam de recebê-los. Diabo Grande era como chamavam o principal índio daquele aldeamento. E demostrou seu desejo de receber a comitiva dos jesuítas enviando para isso seu irmão, chamado de Diabo Ligeiro.

Puseram-se os Padres e seus companheiros a caminho. No entanto, a fraqueza era tanta que, tentando reaver forças, tiveram que parar. Foi quando chegaram alguns outros índios, vindos da aldeia de destino. Traziam mais comida para os viajantes e se dispuseram a transportar os Padres em redes até o final da viagem. Nesta nova pousada obtiveram informações sobre os franceses e sobre os perigos daquela região. Havia um grupo de índios chamados tapuias que viviam por ali. Eram conhecidos por sua violência. Mesmo assim Pai Pina conseguiu estabelecer um primeiro contato.

Enquanto os padres estavam por ali, alguns índios que haviam escapado do grupo de Pero Coelho e que estavam embrenhados nas matas, ouviram falar do novo comboio, da mensagem de paz que traziam e da liberdade que os seguia. Sabendo dessas notícias, um chefe indígena chamado Algodão, saiu para encontrá-los na Serra da Ibiapaba. Passou a meio caminho pela casa de Cobra Azul que também enviou seu filho à serra.

Durante o encontro com os padres, prometeram fazer o que eles mandassem, ir para onde quisessem eles indicassem e juntar-se a quem eles ordenassem. Fizeram então as pazes entre eles e os nativos da Ibiapaba e firmaram acordo. Algodão e o filho de Cobra Azul formariam juntos um novo aldeamento em lugar que combinariam.

Acabada sua passagem naquele lugar, os padres saíram dali com intenção de atingir as terras do Maranhão, mesmo com a incerteza sobre as reações que poderiam ter os tapuias. No entanto, quando estavam já no caminho, tiveram um encontro com um outro nativo chamado Mundiaré que vinha do lugar para onde a comitiva se dirigia. Ele deu conta dos franceses que vira por lá e ainda dos perigos que os inimigos tapuias ofereciam estando eles por todo o caminho.

Mandiaré insistiu para que os padres permanecesses ali enquanto ele iria ter com seus parentes e logo retornaria para guiá-los pelo caminho. Vendo a importância da companhia desse indígena, resolveram eles acampar ali mesmo, cuidando logo de fazer um roçado para manter-se enquanto aguardavam.

Certa noite, estava Francisco Pinto fazendo suas orações dentro de casa e Figueira em outra mais afastada, quando os tapuias surgiram e, com toda a violência característica deles, destruíram  o acampamento, mataram os indígenas que lá estavam e também esmagaram a pauladas o crânio do Pe. Pinto, deixando seu corpo estendido no chão com os braços abertos em forma de cruz, sem roupa, coberto de terra e com o instrumento com o qual fora massacrado largado sobre si. Assim descreve Figueira:

… e durou poucas horas, chegarão então ao p.e e tendolhe hus mãos nos braços estirandolhes p.a ambas as partes ficando elles em figura de cruz, outros lhe derão tantas pancadas cõ hu pao na cabeça q’ lha fizerão em pedaços, quebrandolhe os queixos e amassãndolhe as cacharges e olhos. (INSTITUTO DO CEARÁ, 1967)

Figueira embrenhou-se nos matos na companhia de um jovem índio que prometeu protegê-lo e assistiu  de perto o martírio do amigo de missão. Teve medo e provavelmente desesperou-se quando viu passar bem próximo de si um cachorro que ia à frente dos tapuias farejando e alarmando sobre a presença daqueles que estivessem escondidos.

Por sorte o padre escapou com vida. Esperou que os inimigos fossem embora e aproximou-se do lugar onde teve a visão estarrecedora de seu companheiro morto, na forma como já descrevemos.

Ao ter essa confirmação, desamparado, derramou lágrimas pela tristeza de ter perdido a vida o santo padre. Tratou então de carregá-lo juntamente com alguns objetos que escaparam do saque, e enterrou-o ao pé da Serra da Ibiapaba, ao lado de dois guerreiros que lutaram pela sua vida.

Luís Figueira cumpriu então, longo trajeto de retorno para casa tendo inclusive passado um tempo nas terras de Cobra Azul. Nesse período teve notícias de índios que viviam na Ibiapaba que contaram de uma certa visão que tiveram do Pai Pina no lugar da sepultura e que gostaram muito de tê-lo ali, pois era para eles como um protetor daquele lugar. Segundo Sobrinho, o feiticeiro da tribo dos Tabajaras fez sua interpretação sobre o tal aparecimento, dizendo aos demais que “não fora mais que o deus criador dos mantimentos que os vinha criar para terem o que comer” (INSTITUTO DO CEARÁ, 1967).

Segundo este mesmo auto, os nativos daquela serra passaram a reverenciar o santo padre, tendo-o com o Amanaiara, o Senhor das Chuvas, que tinha o poder de fazer chover e de fazer brilhar o sol. Provavelmente eles já tinham ouvido falar, pelos próprios componentes da expedição, da fama de Francisco Pinto em outros episódios onde dizem que fez chover com suas orações.

Em sua caminhada de retorno Figueira esteve em outra aldeia que ficava nas proximidades do Rio Ceará. Lá foi muito bem acolhido por pessoas que o agradeciam por ele e o Pe. Pinto terem, com muito amor, juntado vários parentes que andavam escondidos por medo dos portugueses.

A forma como Figueira descreve sua passagem final nas terras cearenses, transparece o estado de tormenta em que se encontrava. Sua missão ali acabou em 19 de agosto de 1608, quando fora resgatado por uma embarcação enviada pelo Padre Gaspar de Samperez.


INSTITUTO DO CEARÁ (Org.). Três Documentos do Ceará Colonial: Relação do Maranhão, Relação do Ceará, Diário de Matias Beck. Fortaleza: Departamento de Imprensa Oficial, 1967. (Coleção História e Cultura).

LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil: Tomo III – Norte – 1) Fundações e entradas – Séculos XVII – XVIII. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1943.

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