A vinda dos portugueses ao Ceará
Origens e histórico da Festa do Bom Jesus dos Aflitos – Parte I*

[ Kelson Moreira ]

No folheto feito pela Igreja de Parangaba sobre o roteiro da Peregrinação da Coroa do Bom Jesus dos Aflitos no ano de 1986, encontramos o seguinte registro sobre o histórico da Festa do Bom Jesus dos Aflitos, em Parangaba:

1607 é o primeiro ano em que junto à lagoa de Parangaba encontramos um reduto indígena e na ânsia da peregrinação da fé, Pe. Francisco Pinto, o “Pai Pina” no carinhoso tratar dos índios, para motivar a união, entrega uma coroa de espinhos a alguns índios. A Coroa lembra a paixão do Senhor. Os índios de casa em casa rezam e são convocados para grande reunião de Natal junto à igrejinha do “Rincão”. O motivo: a fé. Mais tarde o Padre Pina é morto por alguns índios que se revoltam contra a invasão dos brancos. Mas a tradição continua, às vezes interrompida por espaço de anos sem a Coroa sair. Em 1817 a Coroa ganha a imagem de Jesus Crucificado. E Bom Jesus dos Aflitos torna-se o padroeiro da já então Paróquia de Parangaba.

Este registro desperta nossa curiosidade e faz-nos levantar algumas perguntas acerca primeiro dos portugueses que vieram por ocasião da colonização exploradora; segundo do Pe. Francisco Pinto que veio para apaziguar os nativos que já estavam nessas terras; terceiro dos índios que vieram a formar a Missão da Porangaba; e quarto da relação que há entre todos eles e a Coroa do Bom Jesus dos Aflitos.

Iniciaremos então uma série de postagens com um breve apanhado histórico sobre os elementos que acabamos de citar, em suas respectivas passagens pelas terras cearenses. Parangaba, em especial.

A vinda dos portugueses ao Ceará

A vinda do colonizador ao Ceará tinha como pano de fundo jogadas de interesses entre o Governo Geral do Brasil, na época sob a chefia de Diogo Botelho, e as expedições que foram organizadas para virem até aqui. O principal interesse do Governador Geral era eliminar a presença francesa nas terras do norte brasileiro, mais especificamente no Maranhão, devido às notícias de riquezas minerais. Naquela época, para chegar ao Maranhão, era preciso passar pelo Ceará.

Em 1967, o Instituto do Ceará lançou uma edição da Coleção História e Cultura intitulada Três Documentos do Ceará Colonial, reunindo a Relação do Maranhão, a Relação do Ceará e o Diário de Matias Beck. Destes três, o primeiro trata do relato escrito pelo Padre Luís Figueira sobre a primeira expedição jesuíta a passar por aqui. Essa edição recebeu preciosos comentários de Thomaz Pompeu Sobrinho. E sobre as dificuldades de chegar ao Maranhão, o comentarista escreve:

Muitos, porém, eram os percalços que se antepunham: grandes distâncias do Recife ao Maranhão, dificuldades da navegação ou das comunicações terrestres pela imensa extensão das praias arenosas, ermas ou infestadas de perigosos íncolas; precariedade dos recursos administrativos etc. (INSTITUTO DO CEARÁ, 1967)

Segundo o mesmo autor, era preciso reconhecer as terras entre Pernambuco e Maranhão e saber a localização exata dos franceses para somente depois pensar em uma estratégia para expulsá-los e seguir com a ocupação e exploração das terras em questão. Por isso, quando o primeiro aventureiro demostrou interesse em embarcar para cá, Diogo Botelho, o Governador, logo deu sua permissão, nomeando assim ao açoriano Pero Coelho de Sousa como capitão-mor que, por sua conta e risco, viria para cá como primeiro expedicionário português.

Pero Coelho de Sousa veio em 1603. Sua motivação: as notícias exageradas sobre a possibilidade de haver riquezas não exploradas no caminho até o Maranhão. O empreendimento foi organizado em duas etapas. Primeiro enviou barcos com mantimentos e armas para o Rio Jaguaribe, saindo pelo mar a partir da Paraíba. O capitão não seguiu com as embarcações, preferiu viajar por terra com alguns soldados e índios. Do Jaguaribe, seguiu para Camocim e de lá foi até a Ibiapaba.

A ideia era iniciar com a expulsão dos franceses da Ibiapaba, submeter os chefes indígenas ao comando português e assentar bases naquela Serra. O Maranhão ficaria para depois. Ele achava que explorar aquela região o levaria a encontrar alguma preciosidade escondida debaixo da rocha.

Do lado dos franceses estavam os nativos Juripariguaçu e Irapuã (que em alguns textos serão chamados pelos significados de seus nomes: Diabo Grande e Mel Redondo, respectivamente). Eles já sabiam da presença de Pero Coelho e sua comitiva e não demoraram em se preparar para o combate. Utilizaram algumas estratégias para isso. Atearam fogo em toda a região próxima, reduzindo tudo a cinzas para desproteger os portugueses. E construíram na subida da Serra um conjunto de três cercados com estacas de madeira de modo a fornecer proteção. O espaço serviu também para estoque de armas e alimentos, deixando os inimigos em situação desfavorável e tornando-os alvos fáceis.

Já o explorador português enfrentou outros tipos de problemas: a falta de comida, a seca e as baixas sofridas em seu exército. No entanto demonstrou-se firme. Estava decidido a tomar aquele lugar. E ele conseguiu depois de algum tempo, mas à custa de muito esforço e sangue, tanto de seu lado quanto do lado francês.

Os nativos, sem alternativa, renderam-se ao conquistador português. Quanto aos franceses foram feitos prisioneiros. Não vamos entrar nos detalhes, mas os relatos dizem que o clima violento criado pela chegada dessa empreitada acabou por se voltar contra o capitão. Com a seca castigando, a escassez de recursos e a falta de cordialidade, soldados e índios que vieram com ele desde a Paraíba foram desertando. 

Sentindo-se sozinho e cada vez mais acuado, começa o expedicionário a fazer o caminho de volta, trazendo consigo os cativos até chegar novamente ao Jaguaribe. Montou estabelecimento ali onde encontrou-se com sua esposa e seus filhos e mandou enviar à Paraíba os franceses e os índios feitos prisioneiros. Imaginava que o gesto agradaria ao Governador Geral, de quem esperava socorro para continuar a jornada.

A ajuda nunca foi enviada. Ao invés disso, na Paraíba, Diogo Botelho julgava ilícito a prisão dos nativos ordenando libertar e repatriar a todos eles. Pero Colho e sua família foram sendo temperados pelo sol escaldante do sertão cearense. Alguns dos filhos morreram por lá mesmo. A expedição não só foi um fracasso, como piorou a relação entre portugueses e índios.

Era preciso outra estratégia que só ocorreria novamente em 1607.


INSTITUTO DO CEARÁ (Org.). Três Documentos do Ceará Colonial: Relação do Maranhão, Relação do Ceará, Diário de Matias Beck. Fortaleza: Departamento de Imprensa Oficial, 1967. (Coleção História e Cultura).

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